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A verdade é que não gosto muito de esportes. Gosto de futebol. Esse é um dos motivos de considerar a Copa do Mundo o principal evento esportivo do Planeta, muito maior que os Jogos Olímpicos.
Posto isso, fui convidado por um amigo a assistir no último domingo a final da Liga de Futebol Americano (NFL), o Super Bowl, mais esperado momento do esporte nos Estados Unidos. Aceitei o convite por uma questão antropológica. Queria entender um pouco das razões de os estadunidenses gostarem tanto desse jogo de brutamontes armados com ombreiras, joelheiras e capacetes.
O duelo entre o New Orleans Saints e o Indianapolis Colts foi em Miami. Logo na chegada a casa fui informado que torceríamos pelos Saints. Motivos: os Colts eram favoritos; tinham um jogador já consagrado (Peytton Manning); os Saints nunca ganharam o Super Bowl; Nova Orleans é o berço do jazz, do blues e teve o estádio transformado em abrigo em 2005 por conta do furacão Katrina, que arrasou a cidade. A analogia com o confronto bíblico entre o gigante Golias e o pequenino Davi era inevitável. Os Davis sempre têm maior apelo popular.
O único problema seria torcer contra o time que jogava de azul. Como cruzeirense convicto, sempre achei os azuis os mocinhos da história.
Sendo constantemente orientado sobre as regras, compreendi que apesar de contar com alguns atletas de 150 quilos, existe, de fato, estratégia, jogo em equipe e talento individual em campo. O quarterback é o principal jogador do time. É comparável ao armador do futebol (soccer). A diferença é que no football só ele tem o direito de elaborar as jogadas. O Alex (Fenerbahçe; Cruzeiro; Flamengo; Palmeiras; Coritiba) seria um excelente quarterback.
Sem dúvidas perdi um pouco do preconceito em relação ao football. De fato é um esporte, mas tudo o que cerca o jogo é USA demais para o meu gosto. O marketing kitsch e sua inerente falta de senso estético, por exemplo.
Para se ter uma ideia, de 21h às 23h, só consegui assistir a meio tempo de jogo. Isso porque antes da partida teve show da Queen Latifah. Ao longo do primeiro tempo foram incontáveis os intervalos comerciais. No fim do primeiro tempo os organizadores montaram novamente um palco gigante no campo onde os roqueiros do The Who botaram para quebrar. A impressão é que o jogo se tornou uma parte menor do evento – quase um pretexto – para todo esse show business.
É como se a final do Campeonato Brasileiro – se ainda tivesse final – fosse precedida por um show da Wanessa Camargo, que agora é só Wanessa, e no intervalo fosse montado um palco luminoso para uma rápida apresentação do Roupa Nova.
Só agüentei até o início do show do The Who, por mais que tivesse interessado em saber como seria o fim daquela partida, até então vencida pelos Colts por 10 a 6.
Soube pelo noticiário que os Santos de Nova Orleans viraram o placar para 31 a 17 no segundo tempo e foram campeões. A segunda-feira pós-vitória foi de festa na cidade que se reconstrói após a tragédia de 2005. Bacana.
Antes que me estranhem ou me rotulem de forma ultrapassada como entreguista, garanto que as duas horas de ESPN só reforçaram o meu entendimento de que o futebol praticado fora dos Estados Unidos, o da bola redonda, de pé em pé, que mistura dança, geometria e coletividade, é incomparável.
Regras simples. Um objetivo claro: o gol. Mistura de esporte e brincadeira de criança, que emociona milionários no Santiago Bernabeu em Madrid e miseráveis na Costa do Marfim. Que pede chuteiras, mas permite pés descalços no chão batido e chinelos transformados em metas, além de meias, latas e garrafas feitas de bolas. O futebol para acontecer só precisa de amigos.
Como melhor definiu Jorge Ben na canção Zagueiro, o futebol é a “guerra maravilhosa de noventa minutos”. E com essa declaração de amor ao soccer, começa aqui oficialmente a minha ansiedade e expectativa a espera da Copa do Mundo da África do Sul.
Zagueiro
Jorge Ben
Arrepia, zagueiro
Zagueiro
Limpa a área, zagueiro
Zagueiro
Sai jogando, zagueiro
Zagueiro
Ele é um zagueiro
É o anjo da guarda da defesa
Mas para ser um bom zagueiro
Não pode ser muito sentimental
Tem que ser sutil e elegante
Ter sangue frio
Acreditar em si
E ser leal
Zagueiro tem que ser malandro
Quando tiver perigo com a bola no chão
Pensar rápido e rasteiro
Ou sai jogando ou joga a bola pro mato
Pois o jogo é de campeonato
Tem que ser ciumento
E ganhar todas as divididas
E não deixar sobras pra ninguém
Tem que ser o rei e o dono da área
Nessa guerra maravilhosa de noventa minutos
De noventa minutos
Arrepia, zagueiro
Zagueiro
Limpa a área, zagueiro
Zagueiro
Sai jogando, zagueiro
Zagueiro
Quando crescer quero ser Clint Eastwood (79 anos), diretor de Invictus. Corrijo. Quando envelhecer quero ser Clint Eastwood, um homem lúcido.
Principal estreia do último fim de semana de janeiro no Brasil, Invictus é para mim um filme sobre a sabedoria, virtude típica dos velhos e tão escassa entre os jovens. A história trata ainda de amor, perdão, liderança, superação. Mas a velha sabedoria comanda.
Na sociedade do prazer/das crianças que crescem mas não amadurecem, tudo o que velho é jogado no lixo, inclusive os velhos. O lixo de no máximo suportar conviver, mas nunca se propor a ouvir. O lixo de se enojar com as veias azuladas, a pele enrugada, o corpo doente, a proximidade da morte.
O efeito colateral dessa sociedade é ainda pior, com velhos, ou aspirantes a velhos, medrosos. Mimados crescidos que pagam de gatões e de gatinhas de meia idade, que criaram uma nova faixa-etária, travestida e ridícula. Corpos velhos fantasiados de pittboys e piriguetes num triste carnaval sem fim.
O velho Clint explorou o assunto velhice em Gran Torino, filme em que interpreta um veterano da guerra da Coréia que acaba de ficar viúvo. No enredo, os filhos mui amigos tentam tirá-lo de casa e interná-lo em um asilo super legal, quase um resort.
Em Invictus, além do velho diretor, o personagem principal é o velho Nelson Mandela, interpretado pelo velho Morgan Freeman. Ai Meu Deus, o que seria da humanidade se não nos fosse dada a oportunidade de envelhecer e sermos um pouco menos estúpidos e arrogantes.
Não há possibilidade de um mundo mais justo sem sabedoria. Precisamos dos nossos velhos. Que Deus conserve a velhice no cinema, na literatura, nos governos, nas rodas de conversa, nas varandas, praças, praias. E se parece ultraconservador/pró-Sarney a minha defesa aos vovôs, não é. É revolucionária.
É difícil de entender mesmo. A mesma dificuldade teve François Pienaar (Matt Damon), o capitão do time de rugby da África do Sul na Copa do Mundo de 1995, realizada no país. Ele não compreendia como Nelson Mandela, que viveu numa cadeia por 27 anos, assumiu o poder decidido a perdoar aqueles que o colocaram na prisão. Madiba, como é chamado, chegou à presidência pelo voto e, sem sede de vingança, lutou por um país de brancos e negros. A postura surpreendeu adversários e, principalmente, os camaradas de partido.
Invictus conta a história da articulação do recém-eleito Nelson Mandela para unir o país, ainda marcado pelo Apartheid - regime em que só os brancos tinham direitos. Para isso, ele utilizou a seleção nacional de rugby, esporte símbolo da colonização inglesa na África do Sul. O título do filme é inspirado no poema de William Henley, usado por Mandela para motivar os jogadores.
Invictus
Autor: William E. Henley
Tradutor: André C. S. Masini
Do fundo desta noite que persiste
A me envolver em breu - eterno e espesso,
A qualquer deus - se algum acaso existe,
Por minha alma insubjugável agradeço.
Nas garras do destino e seus estragos,
Sob os golpes que o acaso atira e acerta,
Nunca me lamentei - e ainda trago
Minha cabeça - embora em sangue - ereta.
Além deste oceano de lamúria,
Somente o Horror das trevas se divisa;
Porém o tempo, a consumir-se em fúria,
Não me amedronta, nem me martiriza.
Por ser estreita a senda - eu não declino,
Nem por pesada a mão que o mundo espalma;
Eu sou dono e senhor de meu destino;
Eu sou o comandante de minha alma.
Tirano é aquele que tem a morte comemorada pelo povo.
Em 24 de junho de 1859, um rico morador de Genebra, chamado Jean-Henri Dunant, numa viagem pelo norte da Itália, viu das colinas ao redor de Castiglione como os exércitos do Imperador Napoleão III, da França, e do Imperador Francisco José, da Áustria, se enfrentavam nos vinhedos e desfiladeiros de Solferino. Dunant escutava como os trêmulos sons da batalha se levantavam através de nuvens de pó e da fumaça dos canhões. Ao cair a noite, o Imperador da Áustria abandonou o campo, e suas tropas, derrotadas, fugiram em debandada. Stendhal, em "A Cartuxa de Parma" havia descrito a confusão da batalha em Waterloo; Tolstoi, em suas "Histórias de Sebastopol", descreveu a camaradagem dos defensores russos na Guerra da Criméia. Mas não há descrição mais pungente do que a feita por Henri Dunant de como fica o campo de batalha depois que ela termina: a terra enegrecida pelo sangue coagulado e cheia de armas, mochilas e capas abandonadas; por todas partes, membros cortados, fragmentos de ossos, caixas de munições; cavalos sem cavaleiros andando entre os cadáveres; rostos contraídos pelas convulsões da morte; homens feridos arrastando-se até charcos de sangue para saciar a sede; e ávidos camponeses lombardos apressando-se, de um cadáver a outro, para roubar as botas dos pés dos mortos.
O trecho acima é o primeiro parágrafo do livro Guerreiros Desarmados, do jornalista canadense Michael Ignatieff. Encontrei o texto no site brasileiro do Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV). Percebi que em vez de um perfil institucional próprio, eles reproduzem partes do livro, que é resultado de reportagem de Ignatieff publicada na revista The New Yorker, em 1997.
Cheguei ao site pelo Google. O terremoto que devastou o Haiti em 12 de janeiro de 2010 pautou jornalistas do mundo inteiro para todas as facetas que envolvem uma catástrofe dessa magnitude. O funcionamento desses organismos internacionais de ajuda humanitária, como a Cruz Vermelha e os Médicos Sem Fronteiras, me chamaram a atenção. Quem são essas pessoas? Como entram nessa vida? De que contexto social saem? Como se financiam?
Eu queria apenas informações básicas para ter um ponto de partida para escrever uma matéria sobre o assunto. Li o primeiro parágrafo do livro e, impressionado, acabei devorando todo o primeiro capítulo. O texto conta a história da Cruz Vermelha a partir da ideia que surgiu na cabeça de seu fundador, Jean-Henri Dunant, ao observar o cenário nada glorioso de um campo de batalha após um combate.
A excelente qualidade do abre me fez pensar sobre como o “começar do texto” quebra a cabeça de escritores desde o tempo das pinturas nas cavernas. O lide, disseminado pelos jornais dos Estados Unidos a partir da primeira metade do século XX, ajudou a resolver os problemas dos repórteres quanto ao que é essencial na informação. São as famosas perguntas de quem fez o quê, quando, onde, como e por quê.
O objetivo do lide é tirar todas as dúvidas essenciais da informação no primeiro parágrafo. Ele ajuda jornalistas com o factual, mas esse expediente é apenas um recurso possível e não uma camisa de força. O jornalismo preso ao lide quadrado deixa de ser interessante. Vira de cabeça para baixo a “pirâmide invertida”, jargão jornalístico para esse formato de construção em que o mais importante fica na parte de cima.
Se é verdade que a maioria das pessoas, ainda mais na internet, lê não mais que o primeiro parágrafo da notícia, também é verdade que da maioria das matérias na internet só se vale a pena ler o primeiro parágrafo.
Procurei o livro Guerreiros Desarmados na Livraria Cultura e parece que ele não foi publicado por uma grande editora no Brasil. O título original é Warrior´s Honor. Pelo que entendi, a única tradução existente é da própria representante regional de Brasília do CICV. Quem se interessar em ler mais sobre acesse www.cicv.org.br/por.
Em dezembro de 1992, ano em que terminei a 1ª série do ensino fundamental, escrevi o que posso chamar de meus primeiros textos. A ideia era produzir uma história por noite antes de dormir. O público consistia, basicamente, em meus pais e minha irmã, todos devidamente alfabetizados na época.
Talvez pelo número reduzido de leitores e pela relevância deles no que dizia respeito ao meu futuro, o assunto “mudança de volta para Brasília após dois anos em Cuiabá” seja tão recorrente nos textos. Acredito ter utilizado politicamente as historinhas como instrumento de pressão e de garantir, assim, a volta para Brasília. Certo é que, independente da minha capacidade de articulação aos oito anos de idade, a decisão de voltar para Brasília já havia sido tomada pelos meus pais quando da produção dos artigos.
A experiência de ler textos de minha autoria de um período tão puramente infantil é pertubadoramente psicoanalítica. É interessante constatar que por mais rudimentar que fosse a forma de se expressar de uma criança recém saída da alfabetização, o raciocínio é o mesmo desde sempre. Duas preocupações são constantes em quase todas as histórias: datar os textos e indicar em que contexto foram escritos (de pijama, debaixo das cobertas; no 7º degrau da escada). Tenha paciência e confira:
Ano 92Neste ano estou na 1ª série D estudando com a Tia Sônia.
Eu fiz aniversário em setembro.
Agora estou com 8 anos.
O nome do meu colégio era Coração de Jesus.
Meu pai teve um troca-troca nos carros. Os carros eram Passat, Parati e Verssallies. Ah, eu ia me esquecendo!
Era uma Parati verde e uma Parati branca!
Um dia meu pai chamou eu e minha irmã para falar que em 93 nós vamos mudar para Brasília.
Eu escrevi este livro em minha cama no dia 29/11/de 92.
Só deixe eu falar mais um pouco:
Feliz 93 para tudos!
O segundo texto é o mais noonsense/LSD no sucrilhos de todos. A tentativa era de colocar no papel um jargão sem explicação que utilizei uma época de, não importa qual o contexto, usar a expressão “cachimbo preto” que, como pode-se concluir sem muita dificuldade, nem mesmo chega a ser uma expressão, apesar de eu usá-la como tal.
1/12/92
A mania predileta de Francisco
Um dia Francisco cachimbo preto. Ele ficou um tempão sempre falando: cachimbo preto. Mas um dia Francisco falou: cachimbou geral! Daí ele falou: cachimbou geral! E o seu colega disse: cachimbou geral! Outro dia ele disse: cachimbou geral! E uma menina disse: cachimbou geral! Um dia eu tava num restaurante e tinha uma placa que dizia: Por gentileza, não fume cachimbo. Hoje a noite minha irmã disse: “cachimbou geral!
Você gostou? Se você gostou leia de novo e diga cachimbou geral!
Eu fiz essa história metade em cima da coberta e a outra parte eu fiz embaixo da coberta.
Com diz todo mundo: cachimbou geral!
6/12/92
Minhas férias
Eu fiquei de férias no dia 27/11/92.
Depois do almoço eu seco a louça.
A tarde eu brinco com meu vizinho.
As 4 horas da tarde eu lancho.
E depois eu lavo e seco e guardo a louça.
Depois eu espero meu pai e minha mãe.
E eu vou dormir.
Eu vou mudar para Brasília dia 17/12/92.
De Brasília eu vou viajar para um monte de lugares com o cabelo despenteado.
Boas férias!
6/12/92
Meu quarto
Eu bagunço todo quarto.
No meu quarto tem...
Cama, armário, cômoda, quadro, roupa, brinquedo, livro, chinelo, sapato, tênis etc.
Eu não brinco muito no meu quarto.
Eu vou no zero ou na sala de televisão.
Caramba, eu esqueci, eu tenho que escovar os dentes, espera um pouquinho. É vapt e vupt. Pronto, já voltei.
Fui demorado?
Sim ou não?
Se eu demorei ligue 321-4676.
Se eu não demorei ligue 321-4412.
Eu fiz esta história com o ar condicionado ligado. Cuide do seu quarto.
Na história acima, o zero é o equivalente ao térreo ou ao “debaixo do bloco” aqui em Brasília. Nota-se uma clara influência do extinto programa Você Decide, da TV Globo, nas alternativas propostas no fim do texto e da Escolinha do Professor Raimundo na expressão “vapt e vupt”.
8/12/92
Minha escola
Eu estudo no colégio Coração de Jesus.
Na primeira série D.
O nome da minha professora é Sônia.
Eu tenho 23 colegas.
Eu vou falar de um colega meu que se chama João Antônio.
Um dia ele foi debaixo da mesa e disse:
- Polícia, policia.
Eu fiz esta história no 7º degrau da escada.
Ah! E agora eu vou mostrar para os meus pais.
10/12/92
Cuiabá
Eu morei dois anos em Cuiabá.
Noventa e um e noventa e dois.
Em 91 eu tive 6 e 7 anos.
Em 92 eu tive 7 e 8.
Esquisito, não?
Em Cuiabá o pré chama é prezão.
Aqui faz muito calor.
Eu fiz esta história pensando muito.
É bom pensar, não é?
Brasília
Eu nasci em Brasília.
Meus tios, meus primos, meu vô e minha vó moram lá.
Eu morei seis anos lá.
Eu agora estou em Cuiabá.
Mas não precisa se preocupar.
Eu vou voltar para Brasília.
Nas férias eu vou lá.
Eu estou dois anos em Cuiabá.
O carro vai levar a mudança.
Eu fiz essa história de pijama.
Sem data definida (mas é de dezembro de 1992 também)
A família
Eu vou começar por minha irmã.
Minha irmã ela gosta de tocar piano.
Hoje ela tocou uma música nova.
Eu só sei que seu cantor predileto é Jom Lenou.
Agora vou falar da minha mãe. Ela as vezes é brava as vezes é calma. Desculpa mamãe mas tem vezes que você é brava.
Meu pai e eu torcemos para o Cruzeiro.
Eu queria dizer que eu estou com sono, mas todo mundo gosta de escrever, não é?
Eu vou dormir. Eu fiz essa história morrendo de sono. Boa noite para minha querida família á á á á á á á á á!
Todos os textos acima foram escritos nas páginas que restaram dos cadernos utilizados no ano letivo. Neles, encontrei outros registros interessantes, como a minha primeira entrevista. O Jorge em questão é meu pai.
Colégio Coração de Jesus
Cuiabá, 9 de abril de 1992
Entrevista
Nome: Jorge
Como foi sua juventude?
No período das aulas eu estudava na cidade. Nas férias, trabalhava na fazenda: ordenhava, plantava, colhia e transportava. Conheci televisão aos 15 anos. Não tinha as informações que os jovens de hoje têm.
Na sua opinião, qual é o motivo de todos os problemas na atual juventude?
A juventude de hoje tem acesso a muitas informações. Isso traz um amadurecimento prematuro. Mas o saldo de tudo isso é positivo, pois evitará erros maiores.
Tenho a leve impressão de que não entendi o que ele queria dizer na segunda resposta e escrevi mesmo assim.
Colégio Coração de Jesus
Cuiabá, 16 de junho de 1992
Vovô Rosendo e o sítio
Vovô Rosendo mora no sítio. Ele anda no seu cavalo que ele tem muito amor. Ele sempre anda todas as manhãs. Anda feliz e muito alegre. Quando vai dormir guarda seu cavalo no curral. Um dia ele chegou muito cansado e esqueceu de guardar seu cavalo e o cavalo morreu de frio.
Gostou? Sim ou não? Se gostou ligue...brincadeira.
Por exigir poucas palavras e apesar de exigir poucas palavras, elaborar bons títulos é tarefa difícil e merece atenção especial.
Uma capa de jornal é como uma feira livre. São barracas a disputar fregueses. O feirante precisa conhecer a mercadoria que tem na mão, saber com que tipo de público lida e como chamar a atenção do freguês.
Os títulos fazem com as pessoas se interessem (ou não) pelo que você tem a dizer. É o título que vende as ideias, fundamentais para quem quer integrar a sociedade em que o conhecimento tornou-se o principal produto na vitrine.
E a importância dos títulos não se limita apenas às manchetes do noticiário. Conversas entre amigos, paqueras, debates políticos e reuniões profissionais também exigem uma boa capacidade de abrir os assuntos. Sem um bom começo fica mais difícil expressar opinião depois.
Quando numa daquelas mesas de bar enormes de confraternização de fim de ano você fala “e quando meu carro atolou de madrugada...”, faz-se um silêncio momentâneo e os ouvidos de todos se concentram no que tem a dizer sobre o contratempo na estrada. O título é, portanto, a chave, não o resumo do texto.
Outro aspecto decisivo na hora de se pensar o título é ter em mente quem é o receptor da mensagem. Quando a hipotética Júlia, de 14 anos, vai contar ao pai que começou a namorar Paulo, o vizinho de 19 anos, ela sabe que não dá para demonstrar o mesmo entusiasmo de quando deu a notícia a Nandinha, sua melhor amiga e confidente. Na primeira situação, Júlia namora Paulo, estudante de Direito. No segundo caso, Júlia namora Paulo, o mais gato da quadra.
De volta ao jornalismo e deixando de lado os novos cabelos brancos do pai de Júlia, o título Homem vestido de duende ameaça Papai Noel e é preso, por exemplo, é excelente para as notícias populares do Portal Terra, mas acho difícil encontrá-lo na primeira página dos principais jornais do Brasil.
Um bom título precisa ser intrigante e adequado ao público, mas é importante estar atento para não transformá-lo em um enigma decifrável apenas por escolhidos.
Pegue a mesma notícia do maluco vestido de duende e troque a chamada por Natal sombrio. Muita coisa pode tornar um natal sombrio. Nesse caso, a generalização esvazia toda a força da notícia e ignora o quão inusitada é a ocorrência policial em questão. Portanto, é bom quebrar a cabeça em busca de uma boa sacada, mas sem sabotar a informação.
Vale aqui algumas dicas para reduzir aqueles momentos de branco total na mente na hora de titular o texto. Filmes, músicas e livros apuram a nossa capacidade de fazer referências entre os clássicos e pautas do cotidiano e nos ajudam a enxergar além do óbvio. Como nos outros casos, um pouco de prudência não faz mal a ninguém. Afinal, o clichê, o absurdo e o genial são tão vizinhos como as opções 1, 2 e 3 da Porta dos Desesperados do Sérgio Malandro.
De qualquer forma, o receio de dar um fora não deve podar a capacidade de produção de ideias. Mesmo que 90% do que diga seja uma bobagem completa, as chances de ter uma boa sacada aumentam bastante quando essas sinapses nervosas passam de devaneios introspectivos a propostas articuladas.
Profissionais que tem no texto o principal instrumento de trabalho precisam saber que ninguém ganha por lauda escrita, mas pelas ideias que compartilha. Os títulos indicam como anda a vazão de idéias na cabeça de quem os escrevem.
Leia abaixo o último capítulo da novela Na vida tudo é passageiro: a impressionante saga do Sr. Terno e Gravata para chegar à Esplanada dos Ministérios no dia 31 de dezembro. Para quem quiser acompanhar essa história do início, sugiro começar pelo texto de segunda-feira (4).
...ainda na parada de ônibus.
Entre vestidos, motoristas, jeans, mochilas, cowboys e malandros, lá se vão 60 minutos do Sr. Terno e Gravata a desfrutar do cheiro de xixi e da literatura funk das pichações adolescentes no concreto da parada de ônibus. Tudo devidamente corroído pelas infiltrações e pelo descaso do poder público.
Convencido a muito custo de que não passaria ônibus algum para a Esplanada naquela manhã de 31 de dezembro, retira pela terceira vez as duas moedas de cinqüenta centavos e a de um real que guardava no bolso da calça.
Procura pelo Sr. Mochila e o avista a caminhar por entre os blocos da Superquadra com o celular no ouvido e a mochila nas costas. Parece que havia chegado a hora dele também colocar em ação o Plano B.
O Sr. Terno e Gravata entra no primeiro ônibus rumo a Rodoviária. Como havia planejado quando chegou ao ponto, o dinheiro trocado na mão diminui a demora entre o subir na condução e o passar pela roleta. Economizar tempo é muito importante. Ele se acomoda e olha pela janela a parada abandonada, cada vez menor, ser deixada para trás.
O ônibus para na esquina inexistente entre a L2 Norte e o Eixo Monumental e com a pastinha descolada de 007 o Sr. Terno e Gravata começa a correr pelo gramado da Esplanada dos Ministérios. O imenso espaço aberto e a árvore de natal gigante montada no canteiro central o faz relembrar a infância, quando ainda era chamado apenas de Boné e Regata.
A taquicardia subseqüente à corrida e a respiração ofegante mantida até a chegada a repartição pública mostra que a disposição da juventude há muito foi embora e que hoje, não só é um adulto, como é um adulto dos mais sedentários. Cinco minutos de corrida e estava exausto.
Perto de se recompor fisicamente, o Sr. Terno e Gravata pede desculpas aos colegas pelo atraso e, às 10h15 da manhã, senta em sua mesa para fazer hora até o almoço. É véspera de ano novo e só se trabalha meio expediente naquela repartição. Entediado, sabe que não terá demanda alguma para preencher o tempo livre até o meio-dia.
Fim